Em Queer, Lee chega à Cidade do México como quem desembarca em um lugar onde ninguém pergunta demais. Ex-militar dispensado da Marinha, ele vive à margem de uma rotina boêmia feita de bares, quartos alugados e amizades rápidas, um mundo em que a sobrevivência parece acontecer por improviso e silêncio. O pós-guerra existe, mas como ressaca: benefícios do GI Bill, trabalhos de meio período, jovens americanos que circulam como se estivessem sempre de passagem.
O filme não corre atrás de uma grande trama. Ele se instala no cotidiano instável de Lee, na sensação de deslocamento permanente, e na maneira como ele tenta se manter inteiro em um ambiente que favorece o esquecimento. É nesse ponto que surge Allerton: jovem, magnético, difícil de ler, o tipo de presença que parece prometer sentido e, ao mesmo tempo, negar qualquer segurança.
Queer: Um expatriado em ruínas e o desejo que não encontra lugar
Queer se move como um estudo de insistência emocional. Lee não está procurando um amor; ele está procurando uma saída para a solidão, e isso muda a natureza do que ele sente. Ao conhecer Allerton, ele se agarra à possibilidade de conexão com uma intensidade que beira o desconforto. O filme não suaviza essa assimetria: o desejo de Lee é maior do que o espaço que Allerton parece disposto a oferecer.
Essa dinâmica é o motor dramático. Allerton não é apresentado como vilão nem como salvador. Ele é ambíguo, às vezes acolhedor, às vezes distante, e essa oscilação transforma o desejo em tortura elegante. Lee tenta decifrar sinais, insiste em encontros, prolonga conversas, usa humor como escudo. E quanto mais ele tenta controlar o vínculo, mais percebe que o controle não existe.
O cenário em volta reforça essa instabilidade. Os bares e círculos de estrangeiros funcionam como lugares de fuga, mas também como espelhos. Há sempre alguém observando, comentando, propondo diversão como anestesia. Joe Guidry, por exemplo, aparece como figura que amplia esse ambiente social: alguém que circula com naturalidade, oferecendo a Lee uma espécie de pertencimento superficial, o suficiente para não desmoronar, insuficiente para resolver o vazio.
O texto e a direção deixam claro que a busca de Lee não é apenas sexual; é identitária. Ele está em uma cidade que permite certos desejos existirem com menos vigilância do que em casa, mas ainda assim com limites invisíveis.
Daniel Craig e Drew Starkey em um jogo de aproximação e fuga
Daniel Craig interpreta Lee com um tipo de vulnerabilidade que quebra a imagem do homem seguro. Ele não precisa fazer grandes discursos para mostrar desamparo; ele faz isso no corpo, no ritmo, na forma como ocupa espaços como se estivesse sempre meio deslocado. Seu Lee bebe, conversa, ri, mas há uma tristeza constante que não vira espetáculo. A atuação funciona porque revela o ridículo e o trágico do desejo ao mesmo tempo, o que combina com a comédia dramática do filme: às vezes você ri porque a insistência é humana demais; às vezes você engole seco pelo mesmo motivo.
Drew Starkey, como Allerton, sustenta a chave do enredo: a opacidade. Ele não oferece ao espectador uma leitura fácil. Allerton pode parecer disponível em um momento e ausente no outro, e essa ambiguidade é o que mantém Lee em suspensão. Starkey não precisa ser cruel para ferir; basta não corresponder no mesmo ritmo. E o filme entende a crueldade desse descompasso: quando um quer transformar encontro em vínculo e o outro prefere manter tudo leve, o atrito vira destino.
A relação entre os dois é construída em pequenas cenas: conversas que parecem banais, toques que demoram, silêncios que carregam mais do que frases. O romance não evolui “por etapas”; ele se enrola, avança, recua, como se o próprio filme evitasse a ideia de conclusão. E isso é coerente com o mundo de Lee: nada ali parece definitivo, nem mesmo o desejo.
Guadagnino e a Cidade do México como estado mental
Luca Guadagnino filma a Cidade do México dos anos 1950 como espaço físico e psicológico. A reconstituição de época não serve só para ambientar; serve para criar uma atmosfera em que calor, sombra e fumaça parecem colados à pele. O olhar do diretor é sensual sem ser automático: ele filma corpos e ambientes como se ambos carregassem memória.
O filme também não se mantém preso ao realismo “literal”. Quando o desejo de Lee cresce e não encontra saída, a linguagem visual se expande: sobreposições, imagens que se encostam, cenas que parecem traduzir o que não pode ser dito diretamente. É como se a própria mise-en-scène admitisse que certas experiências, paixão, obsessão e vazio, não cabem apenas em diálogos.
Nesse sentido, Queer é menos uma história de amor e mais um retrato de desejo não saciado, daquele que reorganiza a mente e muda o peso do mundo. No fim, o que permanece não é a resposta “eles ficam juntos?”, mas a sensação de um homem tentando, com urgência e beleza, encontrar um lugar onde sua vontade não seja apenas falta.
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