A Morte de Robin Hood reinventa de maneira ousada a lenda do fora da lei conhecido por roubar dos ricos para entregar aos pobres. Desta vez, porém, o público encontra uma versão mais velha, endurecida e sombria do personagem.
Caso essa descrição pareça familiar, existe uma razão. O novo filme escrito e dirigido por Michael Sarnoski está longe de ser o primeiro projeto a transformar uma figura icônica da cultura popular em alguém mais sério, complexo e moralmente ambíguo.
Hugh Jackman interpreta o protagonista de A Morte de Robin Hood. A história acompanha o arqueiro décadas depois de seus melhores dias, quando ele precisa encarar uma existência marcada por crimes e assassinatos, bastante distante das aventuras heroicas apresentadas em outras adaptações.
Depois de sofrer ferimentos graves durante mais uma ação violenta, Robin procura abrigo em um priorado. Ali, ele recebe os cuidados da Irmã Brigid, personagem de Jodie Comer, uma mulher que supostamente possui habilidades de cura.
Enquanto se recupera lentamente, o fora da lei estabelece relações inesperadas e começa a confrontar um passado repleto de decisões moralmente questionáveis.
Há quase uma década, Hugh Jackman protagonizou outro longa que transformava um herói amado em um anti-herói complexo. Logan, dirigido por James Mangold, diferenciou-se dos filmes anteriores dos X-Men ao apresentar Wolverine como uma figura mais amarga, atormentada e reflexiva.
Além disso, a produção adotou um clima muito mais melancólico do que o habitual. Portanto, as semelhanças entre Logan e A Morte de Robin Hood ultrapassam o fato de ambos serem estrelados por Jackman.
Do começo ao fim, os filmes de Sarnoski e Mangold compartilham temas, estruturas narrativas e atmosferas bastante próximas.
A Morte de Robin Hood e Logan transformam seus heróis em protagonistas envelhecidos e moralmente imperfeitos
Quando alguém pensa em Robin Hood, algumas imagens surgem imediatamente. O chapéu com uma pena, os trajes verdes — às vezes acompanhados por calças igualmente verdes — e os animados Homens Alegres estão entre os elementos mais conhecidos de suas representações.
No entanto, Michael Sarnoski elimina praticamente todas essas características consideradas essenciais.
Em A Morte de Robin Hood, o protagonista sofre com a enorme distância entre as histórias sobre seu heroísmo e o horror de seus verdadeiros atos.
Logo na abertura, o filme mostra Robin cavando uma cova diante de uma jovem. Posteriormente, ele menciona as inúmeras crianças que assassinou ao longo dos anos, falando com uma frieza calculada e profundamente desconfortável.
Consequentemente, essa versão se distancia de maneira perturbadora do simpático Robin Hood apresentado pela animação da Disney em 1973. Da mesma forma, também não se parece com o aventureiro de Robin Hood: O Príncipe dos Ladrões, interpretado por Kevin Costner.
Em Logan, James Mangold apresenta seu protagonista de forma semelhante. Embora a primeira cena não mostre Wolverine assassinando uma criança, ela o coloca eliminando brutalmente um grupo de criminosos.
O personagem de Hugh Jackman sempre teve uma personalidade direta e agressiva. Contudo, Logan conduz o mutante a um território ainda mais amargo, cínico e emocionalmente perturbado.
Em determinado momento, Laura, interpretada por Dafne Keen, tenta mostrar ao personagem uma antiga história em quadrinhos dos X-Men. A publicação apresenta versões heroicas de acontecimentos envolvendo os mutantes.
Entretanto, Logan rejeita imediatamente aquela narrativa. Para ele, as histórias publicadas são mentiras e os acontecimentos reais foram muito mais terríveis.
“Talvez um quarto disso tenha acontecido”, afirma Logan. “Mas não assim. No mundo real, pessoas morrem.”
Robin Hood diz algo bastante parecido durante A Morte de Robin Hood, inclusive na conclusão emocional da história.
Assim como Logan, ele carrega o peso de um passado construído sobre brutalidade e violência. Portanto, os dois são moralmente muito mais complicados do que qualquer versão anterior desses personagens apresentada nas telas.
Robin Hood e Logan encontram redenção moral ao criarem vínculos com uma jovem garota
Tanto em A Morte de Robin Hood quanto em Logan, os protagonistas desenvolvem uma relação inesperada com uma menina.
No começo de Logan, Wolverine vive completamente isolado, consumido pela culpa e traumatizado pela perda dos X-Men. Durante muito tempo, ele rejeita qualquer ligação emocional até Laura entrar em seu caminho.
A insistência de Charles Xavier e a descoberta de que a garota possui uma ligação genética com Logan começam a derrubar suas barreiras. Aos poucos, ele abandona a postura inflexível sobre permanecer sozinho e passa a nutrir um verdadeiro amor paternal por ela.
Robin Hood atravessa uma transformação semelhante no filme de Sarnoski.
No primeiro ato, seu antigo companheiro João Pequeno, interpretado por Bill Skarsgård, procura o protagonista. O velho amigo o convence a participar de um plano brutal para recuperar algumas terras.
A missão deixa Robin gravemente ferido. Contudo, ela também permite que João Pequeno se reencontre com a filha, a pequena Margaret, interpretada por Faith Delaney.
Após a morte de João Pequeno acontecer fora de cena, Margaret segue até o priorado onde Robin se recupera.
Apesar da resistência inicial do fora da lei, os dois começam a se aproximar. Robin ensina Margaret a utilizar um arco longo e, gradualmente, transforma-se em uma presença protetora e reconfortante para a menina.
Assim como acontece com Laura em Logan, Margaret encontra nele alguém capaz de preencher parte do vazio deixado pela ausência do pai.
Ao mesmo tempo, Robin descobre um afeto que jamais esperava sentir. Dessa forma, aquilo que começou como uma convivência desconfortável torna-se um forte vínculo paternal.
Logan e Robin Hood terminam suas histórias sacrificando-se por algo maior
Depois de reconhecerem gradualmente seus passados e criarem uma conexão profunda com uma jovem, Logan e Robin Hood encontram seus destinos no encerramento de suas respectivas histórias.
Em Logan, o mutante protege Laura e as outras crianças de X-24. No entanto, durante o confronto final do filme de Mangold, ele acaba empalado pelo galho de uma árvore.
Laura é quem finalmente mata X-24 ao disparar uma bala de adamantium. Ainda assim, o heroísmo e o altruísmo de Logan são fundamentais para garantir que ela e as demais crianças consigam sobreviver.
A Morte de Robin Hood apresenta paralelos claros com esse desfecho, embora siga por um caminho ainda mais sombrio.
Por meio das conversas com Irmã Brigid, pequena Margaret, Arthur, vivido por Noah Jupe, e Guy de Gisborne, interpretado por Murray Bartlett, Robin percebe que uma redenção tradicional já está fora de seu alcance.
Ao analisar toda a violência cometida durante a vida, ele compreende que o mundo talvez seja um lugar melhor sem sua presença e sem o legado de vingança estimulado por suas ações.
Logan entrega a própria vida para impedir que Laura e as demais crianças mutantes sejam assassinadas. De maneira semelhante, Robin Hood se sacrifica para proteger Margaret, Irmã Brigid e as outras pessoas ao seu redor.
Nesse caso, entretanto, a ameaça não envolve somente a morte física. Robin também tenta impedir que a corrupção moral e o desejo de vingança destruam aqueles que passaram a significar algo para ele.
Os paralelos entre os finais tornam-se ainda mais evidentes quando os protagonistas dirigem palavras emocionantes às meninas antes de morrerem.
Logan pede que Laura não se transforme na arma que outras pessoas planejavam criar. Logo depois, a jovem finalmente o reconhece como seu pai.
Enquanto isso, Robin implora a Margaret que não participe do ciclo interminável de violência que definiu toda a sua existência. A menina, por sua vez, encara a perda iminente daquela figura paterna que encontrou durante um dos momentos mais difíceis de sua vida.
Assim, ambos utilizam seus últimos instantes para afastar uma jovem querida do mesmo caminho violento que destruiu suas próprias trajetórias.
Nove anos depois do lançamento de Logan, Hugh Jackman retorna a temas semelhantes de culpa, redenção e confronto com uma vida marcada pela violência.
Em A Morte de Robin Hood, o ator novamente transforma um herói adorado em uma figura experiente, cínica, moralmente fragmentada e profundamente arrependida.
Ao protagonizar tanto o filme da Marvel de 2017 quanto a produção de Michael Sarnoski, Jackman demonstra interesse em realizar interpretações subversivas e mais sombrias de personagens conhecidos.
Consequentemente, o ator lidera duas adaptações intensas e emocionantes de figuras estabelecidas na cultura popular, mostrando como heróis aparentemente diferentes podem terminar suas jornadas enfrentando dores, escolhas e sacrifícios muito semelhantes.
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