Do mesmo universo de uma das maiores franquias de ação, um filme que prende o fôlego no 1° minuto

O universo John Wick sempre falou em neon e aço: hotéis com regras próprias, assassinos que tratam violência como etiqueta e uma ideia rígida de código que vale mais do que lei. Bailarina entra nessa mitologia sem pedir licença. Situado entre John Wick 3: Parabellum e John Wick 4, o filme precisa ser duas coisas ao mesmo tempo: uma história autônoma e um capítulo entre eventos que não quebrem as engrenagens da franquia.

Eve Macarro não chega como lenda pronta. Ela chega como produto de disciplina. Treinada pela Ruska Roma, uma organização apresentada na saga principal como família e fábrica de obediência, ela carrega uma motivação simples e perigosa: vingar os responsáveis pela morte da sua família. É uma premissa conhecida, mas, neste mundo, vingança nunca é pessoal por muito tempo: ela sempre encosta em interesses maiores.

Bailarina traz novamente a vingança como rito dentro de um código

A promessa de Bailarina é explorar o contraste que Wick sempre soube transformar em estilo: graça e brutalidade no mesmo movimento. Eve é moldada em um lugar que, por fora, parece academia de balé e, por dentro, funciona como escola de mercenários. O treinamento não é uma metáfora vaga, mas um método. Repetição, postura, precisão e controle do corpo até quando o corpo quer entrar em pânico.

A Diretora, interpretada por Anjelica Huston, retorna como centro de gravidade da Ruska Roma. Ela não precisa levantar a voz para impor autoridade porque seu poder é estrutural: ela decide quem aprende, quem ascende e quem é descartado. Isso torna a jornada de Eve mais ambígua. A vingança que ela busca existe dentro de uma organização que promete pertencimento, mas cobra obediência.

A trama acompanha Eve perseguindo culpados, mas também tentando não se tornar apenas instrumento do mesmo sistema que a formou. O filme insiste na ideia de cadeia: um alvo leva a outro, uma execução chama resposta e um gesto pessoal chama a atenção de quem opera por reputação. E, como é típico do universo Wick, as relações são transacionais: ajuda vem com cláusula, proteção vem com custo e silêncio vem com dívida.

As participações de figuras conhecidas como Winston, Charon e outros rostos do universo, funcionam como lembrança de que Eve não atua em território vazio. Não é necessário transformar isso em fan service: basta que essas presenças reforcem a regra central da franquia: ninguém se move sozinho. Até John Wick aparece, e o filme acerta quando o trata como medida, não como centro. Colocar Eve diante do mito ajuda a responder uma pergunta silenciosa: ela é derivação ou personagem com identidade própria?

Ana de Armas e a construção de uma protagonista que não é cópia

Ana de Armas faz Eve funcionar quando a interpreta menos como versão feminina de Wick e mais como alguém em conflito com o próprio molde. Eve não é movida por um luto idêntico ao de John: ela é movida por uma ferida mais direta, quase bruta, e por uma disciplina que a empurra para o procedimento. Isso dá à personagem um tipo de frieza que não é ausência de sentimento, mas tentativa de não ser engolida por ele.

O filme também ganha quando evidencia que a Ruska Roma não é apenas “treinamento”. É cultura de sobrevivência. Huston, como Diretora, ajuda a dar densidade a essa ideia: sua mentoria não é acolhimento, é fabricação. A relação entre as duas sugere que Eve pode buscar vingança, mas não pode esquecer de onde veio.

A participação especial de Keanu Reeves funciona melhor quando não tenta roubar a narrativa. Wick aparece como sombra que circula naquele período: alguém que também está em guerra com o código e, por isso, serve como lembrete do preço. A presença dele pode virar atalho emocional, mas o filme evita transformar Eve em coadjuvante do Wick quando mantém o foco no método dela.

Estilo Wick, roteiro familiar e o limite do “já vi isso antes”

Bailarina
Imagem: Divulgação

Como ação neon-noir, Bailarina se sustenta pelo que o universo faz melhor: coreografias elétricas, violência estilizada, trilha sonora pressionando e ritmo que raramente deixa o filme repousar. A experiência é de movimento constante, como se cada cena empurrasse Eve mais um degrau na escalada de risco.

Ao mesmo tempo, o roteiro escolhe um caminho bastante reconhecível: vingança em cadeia, alvos sucessivos, regra quebrada e cobrança inevitável. Isso não derruba o filme, mas limita a surpresa. A sensação de familiaridade surge porque o próprio universo Wick já contou variações desse percurso, e essa obra prefere confirmar a mitologia a desmontá-la.

Ainda assim, como capítulo situado entre Parabellum e Baba Yaga, o filme encontra sentido quando aceita seu lugar: expandir o mundo por outro ângulo. Se a história não ousa muito no desenho, a forma tenta compensar e, nesse universo, a forma é parte da identidade. Eve não reinventa Wick, ela ocupa um espaço dentro dele e mostra que a fábrica de assassinos também produz outras lendas, com outras cicatrizes.

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Thais Dos Santos
Thais Dos Santos
Redatora com arquétipo de fora da lei e formada em marketing. Apaixonada por livros, séries e filmes, principalmente os clássicos. Atuo como criadora de diversos conteúdos para web e estou sempre em busca de mais conhecimento. Supernatural, Dark, Grey's Anatomy, A hora do Pesadelo, Uma Noite Alucinante e Bonequinha de Luxo são apenas algumas das minhas paixões, além de um bom rock n' roll.

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