A franquia Star Trek atravessou gerações e ajudou a definir como as viagens espaciais aparecem na televisão. Entretanto, um episódio de Black Mirror conseguiu utilizar elementos bastante semelhantes para construir uma história ainda mais perturbadora. Disponível na Netflix, “USS Callister” mistura aventura, realidade virtual e abuso de poder em aproximadamente 74 minutos.
Lançado como abertura da quarta temporada, o episódio acompanha Robert Daly, interpretado por Jesse Plemons. Embora trabalhe como um programador brilhante, ele enfrenta dificuldades para conquistar o respeito dos funcionários da empresa que ajudou a criar. Contudo, longe dos colegas, Daly revela uma personalidade completamente diferente.
Black Mirror transforma uma homenagem a Star Trek em pesadelo
Robert Daly é o diretor de tecnologia da Callister Inc., empresa responsável por Infinity, um popular jogo de realidade virtual. No ambiente profissional, ele aparece como um homem tímido, isolado e constantemente ignorado. Por isso, inicialmente, a história leva o público a acreditar que ele seria apenas mais uma vítima de colegas arrogantes.
Entretanto, todas as noites, Daly acessa uma versão particular de Infinity inspirada em Space Fleet, uma série fictícia que reproduz o visual de Star Trek. Nesse universo, ele assume o comando da nave USS Callister e obriga versões digitais de seus colegas a tratá-lo como um capitão admirado.
Essas cópias não são personagens comuns de videogame. Daly utiliza amostras de DNA para criar réplicas conscientes das pessoas com quem trabalha. Consequentemente, os tripulantes percebem que estão aprisionados naquele mundo, mas não conseguem escapar nem morrer definitivamente.
A situação muda quando Nanette Cole, vivida por Cristin Milioti, começa a trabalhar na empresa. Depois de interpretar equivocadamente a admiração profissional da programadora, Daly rouba seu DNA e adiciona uma cópia dela ao jogo.
Nanette, porém, recusa-se a aceitar as ordens do capitão. Além disso, ela entende rapidamente que a tripulação vive sob o controle de um homem que utiliza a tecnologia para realizar fantasias de poder e punir qualquer pessoa que tenha contrariado seus desejos.
Embora a estética faça uma homenagem evidente à clássica franquia espacial, Black Mirror leva a proposta para um caminho muito mais sombrio. A nave colorida e os uniformes exagerados escondem um ambiente marcado por tortura psicológica, autoritarismo e ausência completa de liberdade.
O episódio consegue ser melhor que Star Trek?
A comparação depende daquilo que cada espectador espera encontrar. Afinal, Star Trek construiu uma mitologia extensa, apresentou personagens inesquecíveis e influenciou décadas de ficção científica. Portanto, um único capítulo de Black Mirror não substitui toda a importância cultural da franquia.
Ainda assim, “USS Callister” consegue superar algumas aventuras espaciais tradicionais ao transformar seus elementos mais conhecidos em uma crítica sobre tecnologia, poder e comportamento humano. Em vez de mostrar somente uma tripulação enfrentando monstros e ameaças interplanetárias, a produção questiona quem controla os mundos virtuais e o que acontece quando uma pessoa recebe autoridade ilimitada.
O episódio também desconstrói a figura do capitão heroico. Daly utiliza os discursos, as poses e os gestos de um comandante clássico, porém não demonstra coragem ou senso de justiça. Pelo contrário, ele transforma aquele espaço em um território particular no qual todos devem alimentar seu ego.
Por outro lado, Nanette representa uma liderança muito mais próxima dos ideais associados a Star Trek. Ela observa a situação, constrói um plano e convence os demais tripulantes a enfrentarem o responsável por seu sofrimento. Assim, a produção apresenta uma aventura espacial eficiente enquanto analisa relações abusivas e ambientes profissionais tóxicos.
A imprensa destacou justamente essa combinação. O The Guardian, por exemplo, descreveu “USS Callister” como uma abordagem brilhante das homenagens a Star Trek, dos videogames e da cultura tóxica existente em determinados grupos de fãs. Além disso, a publicação elogiou a premissa, as atuações e as reviravoltas do capítulo.
O reconhecimento transformou USS Callister em algo maior
O impacto não ficou restrito às comparações com outras produções espaciais. “USS Callister” recebeu sete indicações ao Emmy e conquistou quatro prêmios, incluindo melhor filme para televisão e melhor roteiro de minissérie, filme ou especial dramático. A produção também venceu nas categorias de edição de som e montagem para câmera única.
Além de Jesse Plemons e Cristin Milioti, o elenco reúne Jimmi Simpson, Michaela Coel, Billy Magnussen, Milanka Brooks, Osy Ikhile e Paul G. Raymond. Dessa forma, mesmo funcionando como uma história independente, o episódio apresenta personagens suficientes para sustentar uma aventura muito maior.
O sucesso foi tão expressivo que Black Mirror decidiu retornar àquele universo. A sétima temporada apresentou “USS Callister: Into Infinity”, primeiro episódio de continuação direta da antologia. Na nova história, Nanette assume o comando da nave enquanto a tripulação tenta sobreviver dentro da versão online de Infinity.
Dessa maneira, “USS Callister” deixou de representar somente uma homenagem sombria a Star Trek. O episódio construiu seu próprio universo, conquistou importantes prêmios e se transformou em uma das histórias mais reconhecidas de Black Mirror. Para quem gosta de ficção científica espacial, mas procura algo mais psicológico e cruel, essa viagem disponível na Netflix merece atenção.
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