Dirigida por Ernesto Contreras, Alba Gil e Alejandro Zuno, a série da Netflix Não Tenho Medo (No Tengo Miedo) acompanha Miguel, um garoto cujas divertidas férias de verão mudam completamente depois que ele encontra uma criança mantida em cativeiro em um esconderijo subterrâneo.
Enquanto procura sua bola de futebol dentro de uma mansão abandonada, Miguel conhece Felipe e, gradualmente, cria uma amizade com ele. A princípio, o menino sequestrado acredita que já morreu e que o poço onde está preso representa uma espécie de inferno.
Entretanto, conforme a produção mexicana de suspense e mistério avança, Miguel começa a investigar o caso. Assim, descobre que Felipe desapareceu meses antes e que seus familiares ainda procuram desesperadamente por qualquer pista sobre seu paradeiro.
Antes de revelar o que encontrou aos próprios pais, porém, Miguel precisa enfrentar várias dúvidas. Afinal, ele não sabe em quem pode confiar naquele ambiente cruel nem qual seria a melhor maneira de retirar o novo amigo do cativeiro.
Felipe Betancourt, de Não Tenho Medo, surgiu em um conhecido romance italiano
Felipe Betancourt representa a versão televisiva de Filippo Carducci, personagem fictício do romance italiano Io Non Ho Paura, conhecido em português como Não Tenho Medo. Escrito por Niccolò Ammaniti, o livro apresenta uma história ambientada na Itália.
A adaptação da Netflix, por outro lado, transfere os acontecimentos para uma região próxima de Veracruz, no México. Além disso, as roteiristas Maria Camila Arias e Mónica Herrera reformularam diferentes elementos da narrativa para aproximá-la da realidade mexicana.
Naturalmente, essa mudança de cenário provocou diversas alterações discretas na trajetória, na personalidade e na apresentação de Felipe. Ainda assim, a essência da história permaneceu praticamente igual. Tanto Felipe quanto Filippo, seu equivalente literário, são personagens inteiramente fictícios.
A ideia de criar Felipe surgiu para Niccolò Ammaniti depois que o escritor já havia imaginado a premissa principal. Isso aconteceu porque sua inspiração não veio de um sequestro real, mas principalmente de uma paisagem observada durante uma viagem.
Enquanto atravessava de carro a região da Puglia, na Itália, Ammaniti encontrou enormes plantações de trigo. A partir disso, começou a pensar em como seria a rotina das pessoas que viviam nas pequenas aldeias e comunidades daquele território durante décadas anteriores.
A história de Não Tenho Medo nasceu como a visão do autor sobre férias de verão que dão terrivelmente errado em uma dessas vilas. Nesse contexto, Filippo funciona como um instrumento narrativo essencial: a criança sequestrada que acaba encontrada pelo jovem protagonista.
Ammaniti também já comentou em diferentes ocasiões sobre seu interesse especial por personagens infantis. Para o escritor, as crianças observam a existência de uma maneira singular, ainda pouco influenciada pelas ideias e justificativas usadas pelos adultos.
Essa preferência aparece diretamente na construção de Filippo. Embora seja vítima de um crime brutal, o menino tenta compreender o cativeiro por meio de crenças, medos e fantasias próprias da infância.
O futebol representa a principal diferença entre Filippo e Felipe
A mudança mais evidente na passagem de Filippo para Felipe está na presença do futebol dentro da narrativa. Diferentemente do romance original, a versão da Netflix acontece durante a Copa do Mundo da FIFA de 1986, disputada no México.
Consequentemente, a série apresenta referências constantes ao campeonato. Muitas delas surgem pela perspectiva de Felipe, um grande admirador do esporte que, por estar aprisionado, perde a oportunidade de acompanhar as partidas.
O menino conversa sobre as seleções, demonstra curiosidade a respeito dos resultados e deseja saber tudo o que acontece durante o torneio. Dessa forma, o futebol também ajuda a fortalecer sua amizade com Miguel.
A produção inclui comentários sobre a participação do México na competição. Além disso, menciona o famoso gol marcado com a mão por Diego Maradona, que posteriormente ficou conhecido como “A Mão de Deus”.
Todos esses elementos aproximam a história de um acontecimento histórico facilmente reconhecido pelo público. Ao mesmo tempo, tornam Felipe mais humano, pois mostram seus interesses e desejos para além da condição de vítima.
Em vez de ser apresentado apenas como uma criança sequestrada, Felipe surge como um garoto apaixonado por futebol, curioso sobre o mundo e frustrado por perder um dos maiores eventos esportivos realizados em seu país.
Assim, a ambientação escolhida por Não Tenho Medo não funciona apenas como pano de fundo. Na verdade, a Copa do Mundo ajuda a marcar o período da história e também reforça o contraste entre a alegria coletiva da população e o sofrimento escondido no subterrâneo.
Um sequestro ocorrido na Itália apresenta semelhanças com a história de Felipe
Embora Niccolò Ammaniti e as roteiristas da adaptação nunca tenham relacionado a trama a um caso específico, um sequestro verdadeiro ocorrido na Itália apresenta alguns pontos vagamente parecidos com a história de Não Tenho Medo.
Em 10 de julho de 1973, John Paul Getty III, que tinha 16 anos, foi sequestrado em Roma por integrantes da organização criminosa italiana conhecida como ’Ndrangheta.
John era neto do magnata britânico do petróleo Jean Paul Getty, considerado uma das pessoas mais ricas do mundo naquele período. Por isso, a notícia sobre seu desaparecimento rapidamente ganhou repercussão internacional.
Segundo os relatos, os criminosos exigiram inicialmente um resgate de US$ 17 milhões. Jean Paul Getty, contudo, demonstrou resistência e não quis entregar a quantia solicitada pelos sequestradores.
A situação mudou depois que os criminosos enviaram uma das orelhas de John para comprovar que ele continuava vivo e mostrar que estavam dispostos a mutilá-lo. Diante dessa violência, o empresário decidiu negociar.
Jean Paul Getty terminou pagando um valor reduzido de aproximadamente US$ 2,2 milhões. Depois de cerca de cinco meses em cativeiro, John Paul Getty III finalmente recuperou a liberdade.
O episódio verdadeiro apresenta algumas semelhanças com a trajetória de Felipe. Primeiramente, ambos pertencem a famílias vistas como ricas e, portanto, tornam-se alvos de criminosos interessados em conseguir dinheiro.
Também existem pontos parecidos na maneira como os sequestradores tentam demonstrar que a vítima permanece viva. No entanto, apesar dessas coincidências, dificilmente Niccolò Ammaniti utilizou diretamente o caso como principal inspiração para criar Filippo.
O sequestro de John recebeu enorme cobertura da imprensa durante a década de 1970. Além disso, o acontecimento influenciou outros escritores italianos, como Philip Nicholson, autor do romance Homem em Chamas.
Posteriormente, o livro ganhou adaptações para o cinema e a televisão. Portanto, o caso certamente permaneceu presente no imaginário cultural de diferentes autores interessados em histórias envolvendo sequestros, famílias ricas e pedidos de resgate.
Ainda assim, não existe confirmação de que a experiência de John Paul Getty III tenha servido como base direta para Não Tenho Medo. O mais provável é que esse episódio tenha sido apenas um entre vários acontecimentos conhecidos que ajudaram a formar referências culturais para histórias fictícias semelhantes.
Dessa maneira, Felipe Betancourt não representa uma criança desaparecida específica da vida real. O personagem nasceu da adaptação de Filippo Carducci, criado por Niccolò Ammaniti para explorar o medo, a perda da inocência e a maneira particular como as crianças tentam interpretar a crueldade dos adultos.
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