John Wick 4, agora de graça no Mercado Play não começa com apresentação. Começa com cansaço. O corpo de Wick já não carrega apenas armas, mas camadas de perda, dívida e exaustão. Cada passo parece menos vingança e mais teimosia. Ele não corre atrás de glória, aliás, nunca correu. E agora está apenas atrás do encerramento.
O mundo ao redor já não é um simples território inimigo. É uma estrutura inteira voltada contra ele. Nova York, Berlim, Paris e Osaka não aparecem como cartões-postais, mas como arenas. Lugares onde cada esquina pode ser armadilha e cada rosto pode ser preço. O título Baba Yaga não funciona como mito heróico, mas como marca de medo. Wick já não é homem comum nem lenda distante. É algo entre os dois.
John Wick 4 apresenta violência como linguagem
Neste longa, a ação não é um espetáculo isolado. Ela é o único idioma. Cada tiro, cada queda, cada perseguição comunica algo que os personagens não dizem em palavras: que não há espaço para neutralidade. Ou se pertence à Mesa, ou se é caçado por ela. O Marquis de Gramont, vivido por Bill Skarsgård, surge como rosto novo do poder antigo. Ele não governa pela força direta, mas pela delegação da violência.
Sua crueldade não está em puxar o gatilho, mas em decidir quem deve puxá-lo. É o tipo de vilão que raramente se suja, mas espalha sujeira por todos os lados. John Wick, interpretado por Keanu Reeves com economia extrema, continua quase sem fala. Seu corpo conta a história: ombros pesados, movimentos automáticos, olhar sempre pronto para o impacto. Ele não parece lutar para vencer. Luta para terminar.
A presença de Winston, vivido por Ian McShane, e do Bowery King, por Laurence Fishburne, reforça que ninguém ali está limpo. São figuras que sobrevivem negociando limites morais. Ajudam Wick, mas também ajudam a si mesmos. A lealdade existe, mas nunca é gratuita.
Os cenários de John Wick 4 funcionam como extensões do conflito. Osaka traz ritual e honra, Paris traz espetáculo e caos, Berlim traz brutalidade crua. Cada cidade oferece uma forma diferente de matar, e de morrer. O filme não tenta esconder o exagero. A violência é coreografada como dança. A figura de Caine, interpretada por Donnie Yen, traz outra camada. Ele não é apenas aliado nem inimigo. É homem forçado a escolher entre dever e afeto.
Sua cegueira não é símbolo de fraqueza, mas de outra forma de ver: ele se move por memória, som, obrigação. Ambos são peças que gostariam de sair do tabuleiro, mas continuam sendo movidas por mãos invisíveis.
O filme entende que o verdadeiro inimigo não é um homem específico, mas o sistema que transforma pessoas em instrumentos. O Marquis apenas representa isso com rosto jovem e sorriso frio. A ação, então, deixa de ser só entretenimento e vira repetição trágica. Cada vez que Wick sobrevive, o mundo exige que ele pague mais caro por isso.
Corpos que contam histórias
Keanu Reeves constrói John Wick como alguém que não tem mais muito a perder, e exatamente por isso se torna perigoso. Seu corpo já não é mais a arma perfeita, é arma cansada. Mas ainda funciona. E isso é o mais cruel: continuar sendo bom em algo que você gostaria de abandonar.
Donnie Yen dá a Caine uma dignidade diferente. Ele luta sem olhar, mas não sem sentir. Seus gestos são econômicos, quase respeitosos. Ele não se move por ódio, mas por obrigação. Cada golpe carrega peso moral.
Bill Skarsgård constrói o Marquis como figura que nunca corre, nunca sua. Ele anda enquanto outros morrem. Sua força vem do distanciamento. Ele não precisa provar nada; precisa apenas mandar. Ian McShane, como Winston, é o rosto da ambiguidade. Ele fala em honra, mas negocia sobrevivência. Seu carisma esconde escolhas difíceis feitas muitas vezes demais.
O falecido Lance Reddick, como Charon, traz presença silenciosa. Ele representa aqueles que nunca são centro da história, mas sustentam o mundo em volta. Sua calma diante do caos não é indiferença, é disciplina. O filme não constrói heróis clássicos. Constrói sobreviventes. Pessoas que já passaram do ponto em que escolha é livre. Elas apenas escolhem como pagar o preço.

Cada luta revela algo. Wick luta para encerrar. Caine luta para proteger. Outros lutam para manter poder. Ninguém luta por justiça. A coreografia não esconde o cansaço. Pelo contrário, o exibe. Cair dói mais. Levantar demora mais. Matar continua fácil demais. A ação é bonita, mas nunca confortável. Ela impressiona, mas também incomoda, porque não promete saída.
Não há volta
O que John Wick 4: Baba Yaga constrói é menos uma história de vingança e mais uma história de insistência. Wick não luta porque acredita. Luta porque ainda respira. O filme não oferece redenção clara. Oferece consequência. Cada escolha gera outra batalha. Cada vitória chama nova dívida.
O submundo não quer que ninguém se liberte. Quer apenas que as peças mudem de lugar mantendo o mesmo jogo. Wick tenta quebrar isso não com discurso, mas com movimento. Ele atravessa o mundo como quem tenta atravessar a própria culpa. No fim, o que resta não é glória. É silêncio. E o silêncio, nesse universo, nunca significa paz, apenas pausa antes do próximo disparo.
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