O encerramento de O último gigante transforma um reencontro doloroso em uma reflexão sobre abandono, perdão e despedida. Embora o longa apresente paisagens impressionantes e tente equilibrar drama com alguns momentos leves, o centro da história está na ferida deixada por um pai que desapareceu por quase três décadas. Quando Julián reaparece de repente, Boris já é um homem feito e não vê motivo algum para reabrir uma relação que, para ele, praticamente nunca existiu.
Ainda assim, o retorno desse pai ausente não acontece por acaso. Em O último gigante, Julián não procura apenas um acerto emocional com o filho. Ele volta porque precisa pedir algo extremo. É justamente esse pedido que empurra a trama para seu desfecho mais duro e também mais simbólico.
Por que Julián foi embora em O último gigante?
Logo no início de O último gigante, vemos Boris trabalhando como guia turístico nas Cataratas do Iguaçu. A rotina dele muda quando um senhor insiste em se aproximar. Boris evita o homem repetidas vezes, até descobrir que se trata de Julián, seu pai, que sumiu de sua vida há 28 anos.
A explicação para esse abandono revela um homem profundamente egoísta. Antes de conhecer Leticia, mãe de Boris, Julián já tinha outra família em Buenos Aires. Como piloto, ele levava uma vida dividida e aparecia apenas de tempos em tempos. Seu relacionamento com Leticia durou anos, mas ele nunca rompeu de verdade com a outra vida que mantinha longe dali.
Segundo o próprio Julián, Leticia foi o grande amor de sua vida. Mesmo assim, ele a deixou. E fez isso sem pensar no impacto que sua decisão teria sobre o filho. Em vez de assumir as consequências dos próprios atos, escolheu retornar à família anterior e seguir em frente. Em O último gigante, esse passado mostra que Boris não carrega raiva à toa. Ele cresceu sob o peso de uma ausência que ninguém tentou reparar.
Boris deveria ter perdoado Julián?
Boa parte de O último gigante gira em torno dessa pergunta. Depois de evitar qualquer contato, Boris finalmente aceita encarar o pai. Só que esse encontro acontece da pior forma possível. Quando os dois se aproximam, o ressentimento acumulado explode, e Boris agride Julián diante do hotel, mandando o velho direto para o hospital com costelas quebradas.
A cena é brutal, mas deixa claro o tamanho da dor guardada por Boris. E o filme reforça que esse sofrimento não nasceu apenas da irresponsabilidade de Julián. Leticia também tomou decisões pensando mais em si mesma do que no filho. Julián escolheu desaparecer. Leticia decidiu manter viva a lembrança daquele romance. No meio disso tudo, Boris cresceu sem que ninguém realmente considerasse o que aquela história faria com ele.
O problema fica ainda maior quando Julián revela o verdadeiro motivo de sua volta. Em O último gigante, ele reaparece porque recebeu um diagnóstico de câncer e quer morrer com dignidade. Para isso, pede ajuda justamente ao filho que abandonou. É um pedido pesado, cruel e quase absurdo. Por isso, mesmo quando Boris começa a ceder, o gesto não nasce de esquecimento. Ele surge porque Boris é um homem melhor do que o pai jamais foi.
Julián morre no final de O último gigante?
Sim, o final de O último gigante deixa fortemente implícito que Julián morre. Nos momentos finais, enquanto Leticia canta The Sound of Silence, Boris leva o pai até as cataratas para entregar a ele a chamada “poção da morte”, preparada por Bebe. O objetivo é permitir que Julián tenha o fim que deseja, longe da dor e sem prolongar o sofrimento.
Boris decide ajudá-lo, mas não permanece ao seu lado até o último instante. Ele entende que não deve carregar sozinho o peso total dessa despedida. Ainda assim, escolhe tornar possível aquilo que o pai tanto queria. O filme não mostra a morte de forma explícita, mas sugere com clareza que Julián se lança nas cataratas e encontra ali o desfecho que buscava.
Quando Boris volta para casa e vê Leticia terminar a música com lágrimas nos olhos, a cena deixa pouca margem para dúvida. Ela entende que aquele homem partiu para sempre. Em O último gigante, a morte de Julián não aparece como choque, mas como libertação.
Qual é o verdadeiro significado?
O sentido mais profundo de O último gigante aparece na imagem final. Depois de tudo, Boris retorna ao trabalho e vai até as cataratas ao amanhecer. Lá, ele vê um pai carregando o filho nos ombros. Essa visão desperta nele a lembrança de um momento feliz com Julián, ainda na infância. Era esse homem do passado que Boris via como um gigante.
Esse detalhe muda bastante a leitura do filme. O gigante não é Julián como ele realmente foi durante a maior parte da vida, mas a figura idealizada que Boris guardou dentro de si. Quando criança, ele enxergava no pai uma presença imensa, protetora e quase mítica. Com o tempo, essa imagem foi destruída pelo abandono. No entanto, no fim de O último gigante, Boris parece recuperar ao menos uma parte dessa memória boa.
As cataratas também carregam um peso simbólico importante. Para Julián, representam o lugar da despedida. Para Boris, funcionam como espaço de transformação. É ali que ele enfrenta o passado, ajuda o pai a partir e encontra algum tipo de paz. Antes, ele apenas mostrava a beleza do lugar aos turistas. Depois de tudo, parece finalmente enxergar essa grandeza com outros olhos.
O filme também sugere uma dimensão espiritual. Em um momento anterior, Boris fala sobre a ideia de imaterialidade, como se a energia das pessoas continuasse existindo mesmo depois da morte. No desfecho, quando ele sorri ao ver novamente um “gigante”, fica a sensação de que ainda consegue sentir a presença do pai, agora sem o peso da mágoa dominando tudo.
O final de O último gigante é triste ou esperançoso?
Curiosamente, O último gigante termina mais com esperança do que com desespero. Há dor, claro. Julián morre. Boris jamais recuperará os anos perdidos. E nenhuma reconciliação apaga o estrago feito por décadas de ausência. Mesmo assim, o filme sugere que algum tipo de reparação ainda foi possível.
Boris teve a chance de olhar para o pai uma última vez e encerrar essa história em seus próprios termos. Julián, por sua vez, conseguiu o fim que desejava. Assim, O último gigante não trata apenas de morte, mas de libertação emocional. Sua principal mensagem parece falar sobre perdão, não como absolvição completa, mas como uma forma de seguir em frente sem continuar preso à ferida.
No fim, O último gigante escolhe mostrar que nem toda reconciliação precisa ser perfeita para ter valor. Às vezes, basta que ela permita transformar uma ausência devastadora em uma lembrança menos dolorosa.
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