Em Lucky, produção do Apple TV+, Anya Taylor-Joy vive uma mulher cuja existência muda completamente depois que uma decisão equivocada a obriga a retornar ao universo do crime. A narrativa começa com a protagonista que dá nome à série prestes a construir uma nova vida ao lado de seu companheiro. Contudo, tudo desmorona na manhã seguinte, quando ele desaparece levando o dinheiro que os dois haviam roubado.
Agora, Lucky precisa fugir do FBI e, ao mesmo tempo, permanecer escondida dos criminosos que tiveram a quantia tomada. Desenvolvida por Jonathan Tropper, a série de suspense policial apresenta uma história intensa na qual a personagem precisa recuperar seus instintos mais sombrios para sobreviver diante de circunstâncias aparentemente impossíveis.
Um anúncio de rádio inspirou a história fictícia de Lucky
Lucky não apresenta uma história real. Na verdade, a série adapta o romance homônimo publicado por Marissa Stapley em 2021. Jonathan Tropper e Cassie Pappas ficaram responsáveis por levar a obra para as telas.
A primeira ideia para o livro surgiu enquanto Stapley ouvia uma notícia no rádio sobre um bilhete premiado de loteria que ainda não havia sido resgatado. Durante o programa, os apresentadores comentavam sobre o enorme valor reservado ao vencedor, que, por algum motivo desconhecido, não aparecia para receber o prêmio.
Em seguida, eles começaram a imaginar por que uma pessoa deixaria de buscar uma quantia tão elevada. Inicialmente, surgiram explicações relativamente simples, como a possibilidade de o ganhador ter perdido o bilhete. Além disso, talvez ele tivesse morrido antes mesmo de descobrir que possuía os números vencedores.
Entretanto, a conversa tomou uma direção mais obscura. Em algumas situações, determinadas pessoas evitavam se apresentar por causa de um passado criminoso. Embora o dinheiro pudesse ajudá-las a abandonar a antiga vida, receber o prêmio também exigiria exposição pública e aumentaria o risco de prisão.
Essa possibilidade permaneceu na mente de Marissa Stapley. Dessa forma, ela começou a imaginar uma personagem que enfrentasse exatamente esse dilema. Ao desenvolver o perfil criminoso da protagonista, a autora considerou que transformá-la em uma golpista seria uma escolha adequada, o que resultou na criação de Lucky.
Stapley sempre demonstrou interesse por histórias sobre vigaristas e golpes cuidadosamente planejados. Entre suas principais referências, ela mencionou filmes e séries como “Onze Homens e um Segredo”, “Prenda-me Se For Capaz”, “Trapaça” e “Lupin”. Essas produções a incentivaram a aprofundar o passado de Lucky como uma criminosa habilidosa.
A autora estudou a mente humana para construir uma personagem complexa
Para compreender melhor o pensamento de uma golpista, Marissa Stapley realizou uma pesquisa aprofundada sobre o assunto. A escritora assistiu a vídeos no YouTube para aprender técnicas como entregar o troco incorreto e manipular partidas de cartas.
Além de acompanhar diferentes filmes e séries centrados em criminosos desse tipo, ela também consultou diversos livros sobre o tema. Entre eles, estava a obra de não ficção “Confident Women”, de Tori Telfer, que apresenta histórias de golpistas reais.
Na introdução do livro, Telfer analisa uma regra informal da sociedade segundo a qual as pessoas geralmente precisam agir com honestidade umas com as outras. Contudo, os vigaristas se diferenciam porque conseguem romper esse acordo com muito mais facilidade do que a maioria.
Apesar disso, a autora observa que esses criminosos costumam despertar mais fascínio do que ódio. Isso acontece porque suas ações permitem que o público experimente a fantasia de quebrar as mesmas regras e desfrutar do poder que os golpistas parecem possuir.
Stapley percebeu que esse elemento torna as produções sobre assaltos e fraudes tão envolventes. Embora exista um componente criminoso, essas histórias oferecem aos espectadores uma experiência indireta de desobedecer a limites que dificilmente poderiam ultrapassar em suas próprias vidas.
A escritora desejava reproduzir essa sensação em Lucky. Portanto, decidiu contar a trajetória de uma mulher extremamente competente em enganar outras pessoas, mas que não poderia ser considerada necessariamente má.
Ao longo da narrativa, a protagonista enfrenta situações extremas e precisa tomar decisões moralmente duvidosas. Ainda assim, sua personalidade não nasce da crueldade.
Marissa Stapley também procurou impedir que Lucky parecesse uma pessoa impossível de perdoar. A intenção era fazer com que o público se identificasse com a ideia de que os piores momentos de alguém não precisam determinar toda a sua existência.
Consequentemente, a história mantém a esperança de transformação e mostra que uma pessoa ainda pode encontrar outro caminho, mesmo depois de cometer erros graves.
Acima de tudo, a autora queria escrever uma aventura divertida. Stapley trabalhou no romance durante o período em que sua mãe enfrentava um câncer. Por isso, mesmo com todos os crimes presentes na trama, ela desejava criar uma distração envolvente para as próprias preocupações.
Além disso, a escritora revelou que incorporou à protagonista algumas características de sua mãe, como coragem e resistência diante das adversidades. Esses elementos contribuíram para tornar Lucky uma personagem mais humana, detalhada e convincente.
Os criadores adicionaram elementos realistas para tornar Lucky mais próxima do público
Depois de ler o romance, Anya Taylor-Joy se reconheceu principalmente nos aspectos da protagonista que não estavam ligados ao crime. A atriz se identificou, sobretudo, com a necessidade constante de Lucky de permanecer em movimento, já que ela não consegue ficar parada por muito tempo.
De fato, por ser perseguida tanto pelas autoridades quanto por criminosos, a personagem corre frequentemente durante os sete episódios da produção.
Para atender às exigências físicas do papel, Taylor-Joy começou a se preparar cerca de um mês antes do início das gravações. Contudo, durante as filmagens, a equipe pediu que ela evitasse transmitir a impressão de que Lucky estava habituada a correr daquela maneira.
Os responsáveis queriam que a personagem demonstrasse falta de equilíbrio, dificuldade e certo desespero. Assim, suas fugas pareceriam mais naturais para uma pessoa comum e, ao mesmo tempo, ampliariam consideravelmente a tensão das cenas.
Segundo informações divulgadas, Anya Taylor-Joy quase sofreu uma perda parcial da audição porque alguns disparos ocorreram muito próximos de seus ouvidos. Entretanto, não existem relatos de que a atriz tenha enfrentado ferimentos ou danos permanentes.
Para outras sequências de ação, a produção contratou Hayley Wright, que também trabalhou como dublê de Taylor-Joy em “Furiosa”.
Para Jonathan Tropper, Lucky também representa uma investigação sobre a maneira como a identidade de uma pessoa se relaciona com sua família problemática.
Por meio da protagonista, o criador quis explorar uma antiga dúvida: alguém consegue realmente mudar durante a vida adulta e se libertar de comportamentos aprendidos na infância?
Esse conflito acompanha Lucky durante toda a temporada. Conforme tenta escapar do passado, ela precisa enfrentar hábitos e instintos desenvolvidos ainda jovem.
A partir dessa luta, os responsáveis pela série procuraram construir uma protagonista por quem o público pudesse sentir empatia, mesmo quando não conseguisse se identificar completamente com suas atitudes.
À medida que a situação se torna mais perigosa, as escolhas de Lucky levam os espectadores a questionar se ainda devem apoiá-la.
Dessa forma, a personagem ganha maior impacto e profundidade, apesar de tanto sua história quanto suas experiências serem totalmente fictícias.
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