Quando o assunto envolve séries de ficção científica da Netflix, quase sempre as atenções se concentram nas produções originais do serviço. Isso faz sentido, considerando o enorme impacto conquistado por títulos como Stranger Things, Dark e Black Mirror. Entretanto, esse domínio cultural também faz com que diversas séries excelentes, que não nasceram originalmente na plataforma, acabem esquecidas dentro do catálogo.
Ao lado dos grandes sucessos originais de ficção científica da Netflix, existem ótimas produções do passado que merecem a mesma atenção. Entre elas está Travelers, estrelada por Eric McCormack, conhecido por Will & Grace, e exibida inicialmente pelo canal canadense Showcase entre 2016 e 2018.
A produção chegou internacionalmente ao streaming no mesmo ano em que estreou no Showcase. Com uma narrativa tensa e sequências de ação impressionantes, Travelers consegue competir facilmente com séries originais da Netflix, como The Rain e Maniac.
A premissa de Travelers desperta interesse imediatamente. Séculos à frente, a humanidade encontra uma forma de enviar consciências humanas ao passado, permitindo que agentes do futuro assumam os corpos de pessoas que vivem no século XXI.
Obrigados a continuar as rotinas daqueles desconhecidos, enquanto trabalham secretamente para impedir o colapso da humanidade, os viajantes precisam equilibrar missões praticamente impossíveis com relações pessoais cada vez mais difíceis. Portanto, quem passou anos revendo os mesmos sucessos da plataforma deveria considerar Travelers como sua próxima escolha na Netflix, sobretudo caso aprecie viagens temporais e histórias de ficção científica envolvendo troca de corpos.
Travelers combina perfeitamente viagem no tempo e ficção científica com troca de corpos
Toda grande série de ficção científica precisa apresentar um gancho inesquecível, e Travelers possui uma proposta extremamente original. Em vez de recorrer a máquinas do tempo ou portais tradicionais, a trama imagina um futuro no qual apenas a consciência humana consegue viajar através do tempo.
Além disso, o processo não acontece de maneira aleatória. Os Viajantes, responsáveis pelo nome da série, somente podem ocupar pessoas cujas mortes estão registradas historicamente. Assim, a linha temporal permanece praticamente inalterada, enquanto a consciência de um agente do futuro recebe um corpo vivo para utilizar.
Essa ideia incomum cria inúmeras possibilidades para a narrativa. Grant MacLaren (McCormack) e sua equipe não chegam ao passado apenas com identidades diferentes. Na verdade, eles assumem existências completas, acompanhadas por responsabilidades, vínculos pessoais e uma enorme carga emocional.
Consequentemente, cada missão se transforma em um complicado exercício de equilíbrio entre salvar o futuro e interpretar outra pessoa de maneira convincente. Contudo, ao contrário de muitas histórias sobre troca de corpos, Travelers nunca utiliza sua premissa apenas como um recurso passageiro.
Na série, MacLaren e os demais integrantes da equipe vêm de um futuro apocalíptico. Entretanto, depois da viagem temporal, eles passam a ocupar seus hospedeiros de modo permanente. Por isso, precisam enfrentar consequências que se tornam progressivamente mais complexas durante as três temporadas.
A abordagem da produção em relação às viagens no tempo também se mostra inovadora. Em vez de modificar continuamente a história por meio de grandes saltos entre diferentes décadas, cada decisão provoca efeitos consideráveis. Afinal, até mesmo uma pequena alteração pode transformar radicalmente o futuro.
Os fãs de Quantum Leap, principalmente, devem valorizar o desafio emocional de assumir a existência de outra pessoa. Enquanto isso, quem gostou de Dr. Dean MacKenzie provavelmente apreciará a construção elaborada de causa e consequência.
Da mesma forma, os admiradores de Terminator: The Sarah Connor Chronicles podem considerar fascinante a luta constante para evitar um futuro sombrio, embora apresentada por uma perspectiva completamente diferente. Desse modo, Travelers reúne temas e conceitos presentes nessas produções, mas os reorganiza em uma visão original sobre um segmento bastante querido da ficção científica.
A pontuação de 100% no Rotten Tomatoes para Travelers é merecida
A proposta envolvente já seria suficiente para transformar Travelers em uma recomendação simples aos fãs de ficção científica. No entanto, o reconhecimento da crítica demonstra por que a produção continua tão adorada. Sua avaliação perfeita de 100% no Rotten Tomatoes representa muito mais do que mecanismos criativos envolvendo viagens temporais.
A série alcança espectadores que estão além do público tradicional do gênero. Para isso, combina ideias inventivas de ficção científica com histórias humanas emocionalmente autênticas e protagonizadas por personagens marcantes.
Além disso, Travelers impressiona por suas sequências consistentes de ação. Grant MacLaren, interpretado por Eric McCormack, ocupa uma posição central, porém todos os membros de sua equipe recebem um desenvolvimento importante ao longo da trama.
Os dilemas do roteiro
O roteiro também se destaca ao examinar dilemas éticos. Cada modificação intencional na linha temporal levanta questionamentos complexos sobre o direito que o futuro possui de interferir na vida das pessoas do presente. Assim, esses conflitos morais concedem à série um peso emocional muito maior do que sua premissa inicialmente sugere.
Para além dos componentes de ficção científica, Travelers funciona como um excelente drama sobre personagens. Os relacionamentos avançam de maneira natural e, frequentemente, cenas domésticas aparentemente simples se tornam tão interessantes quanto as missões de grandes proporções.
Ao mesmo tempo, a série evita cuidadosamente exageros melodramáticos. Em vez disso, sustenta suas tramas emocionais nas escolhas difíceis dos personagens. Como resultado, cada conquista e cada fracasso parecem verdadeiramente justificados.
Essa mistura de roteiro preciso, interpretações marcantes, narrativa emocionante e construção criativa de universo explica por que Travelers preserva uma reputação tão positiva oito anos depois de sua estreia.
Inclusive, espectadores que normalmente não acompanham ficção científica podem apreciar o equilíbrio dramático e as questões éticas interessantes presentes em sua proposta futurista. A produção talvez não seja uma criação original da Netflix no sentido convencional, mas sua excelente reputação continua completamente merecida.
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